A obra Authorization, de Michael Snow (1929) põe em discussão a complexa relação do fotógrafo e do seu observador, autorizando a sua contemplação. Vê-se um mundo se fechando e transbordando por entre a moldura do espelho, o objeto que desmorona a omissa presença do admirador. Snow montou e materializou artesanalmente, o que enriquece ainda mais a experiência, um texto imagético sobre o encontro do observador com a obra e o seu autor. Em um espelho de dimensões proporcionais a uma foto polaroide, Michael traçou com uma fita adesiva, um novo quadro, novamente com as dimensões da união de quatro fotografias polaroides.
Michael se posicionou perante o espelho de forma que pudesse enquadrar a si, para depois sumir, e eternizar. A cada disparo de sua câmera, revelava-se um novo quadro. A revelação imediata, favorecida pela sua câmera polaróide, é o que permite a autenticidade da obra. A primeira foto continha todo o quadro, espelho, fitas, câmera, Snow. A segunda, além de todos os elementos que compõem a obra, havia algo além. A cada captura surgia a foto tirada em anterior, colocada uma ao lado da próxima, duas em cima, duas em baixo, em um novo quadro de dimensões polaroides. Por fim, Michael desapareceu, notamos apenas pela última foto colocada no canto superior esquerdo do espelho. Agora se põe ali o observador, se reconhecendo como tal, e ao mesmo tempo sendo reconhecido.
Essa genialidade provoca uma inquietação profunda, de admiração, de voyerismo, de gozo. Algo que se repetiu semelhantemente com o ensaio Fome de Ver, do fotógrafo japonês Kohei Yoshiyuki. Kohei fotografou, na década de 1970, durante a noite, em três parques de Tóquio. O que chama a atenção neste ensaio é o registro de casais em encontros sensuais, sendo observados por uma dezena de voyers. Inusitadamente, em exposição, as fotos propusera a seus espectadores a atividade de voyerismo em círculo, como Snow.
Philipe Dubois (1993), ainda mais essencialista, coloca a própria captura fotográfica, feita através de um espelho posicionado dentro da câmera, como o primeiro ato de voyerismo. O ato fotográfico é um fazer que congela, e ao mesmo tempo reflete, como um espelho, a sua ação. A fotografia é, senão, a sua própria história, o seu passado e o seu presente, revelando a todos que envolvem-se na sua narrativa.


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