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31.10.11

A engenharia do lixo


“Ali atrás vai ser uma faculdade, aqui na frente vai ser um salão de cabeleireiro”, mostra seu Josué Albano Cabral, 52 anos, apontando para frente da sua moradia. A casa em questão, localiza-se em uma barranco ao lado de uma loja de piscinas, na Av. Tomaz Landin, perto da ponte de Igapó, na Zona Norte de Natal. É feita com lixo, coisas que seu Josué encontrou e usou para construir seu abrigo. Guarda o único documento que possui (sua dispensa de reservista) amarrado em seu boné com um arame. Usa uma cruz presa a um cordão como cinto e veste uma surrada camisa branca de botão.

A fachada da casa é construída com papelão, madeiras, garrafas pet, e toda sorte de coisas que se pode encontrar facilmente no lixo. Há também algumas plantas e flores dentro de latas vazias. No pequenino espaço interno, há um sofá pequeno, quase completamente sem cobertura, bastante sujo. Nas paredes de madeira, papelão, e tijolos reciclados, algumas fotos religiosas, uma página de revista com uma atriz global, numa bela casa, estampada. A casa de Josué Albano não se assemelha em nada à da atriz, mas, estranhamente, o local passa certa impressão de organização.

Antes a casa de seu Josué era do outro lado da ponte, mas foi removida. Segundo ele, após se ausentar de casa, ao voltar ao local uma viatura da polícia militar o esperava com as ferramentas para derrubar seu castelo de lixo. “Eles levaram tudo, ferramentas, enxada, minhas roupas. Levaram tudo”, conta Josué. Ele explica que não sofreu violência para deixar a casa, “Porque eu não reagi. Quando eu cheguei me mandaram logo ficar calado e começaram a derrubar as coisas.” Tal qual o famoso samba de Adoniran Barbosa, a maloca de seu Josué foi derrubada, fazendo com que ele começasse sua nova construção.

Seu Josué intercala momentos de aparente lucidez com frases desconexas. Quando perguntado sobre sua família, engata numa história confusa e sugere que sua mãe teria sido do exército. Se exalta um pouco quando peço para que explique o assunto novamente. “Você já sabe, não vou dizer mais”, retruca. Diz que tem três filhos, sua única família, mas que não tem contato com nenhum deles.Pedimos uma foto dele ao lado da casa e para nossa surpresa o homem diz que não vai tirar a fotografia. “Porque a casa ainda não está pronta, quando estiver vocês voltam aqui e tiram a foto. É que eu ainda estou na engenharia”, diz. Insistimos em tirar uma foto apenas dele. Enervado o homem diz que não vai tirar a fotografia de jeito nenhum. “É para não misturar as essências”. Não insistimos mais.

Seu Josué continua procurando mais coisas que possa acrescentar à sua casa. Continua na engenharia de um castelo de lixo e de ilusões. Um homem sem ninguém, sem uma perspectiva real, que aparentemente só quer um lugar para morar. Seu Josué não tem medo de sua casa desabar. Ele diz que não será mais despejado, pois comprou o terreno. Não é possível que tenha comprado, já que o local não tem dono, é área do município. O engenheiro do lixo segue seu projeto, apegado a sua casa e sua história fantasiosa, engordando as estatísticas de desabrigados no Brasil.

2 comentários:

  1. Massa Josué, você entendeu que nada é real, tudo é ilusão, as vezes doce, as vezes amarga.

    Ingrid adorei a foto!

    sejemoslibre!

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