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17.2.12

Wonderland


"Gatinho de Cheshire”, começou, muito timidamente, por não saber se ele gostaria desse tratamento: ele, porém, apenas alargou um pouco mais o sorriso. “Ótimo, até aqui está contente”, pensou Alice. E prosseguiu: “Você poderia, por favor, me dizer qual é o caminho para sair daqui?”
“Depende muito de onde você quer chegar”, disse o Gato.
“Não me importa muito onde...”, foi dizendo Alice.
“Nesse caso não faz diferença por qual caminho você vá”, disse o Gato.
“... desde que eu chegue a algum lugar”, acrescentou Alice, explicando.
“Oh, esteja certo de que isso ocorrerá”, falou o Gato, “desde que você caminhe o bastante”.

(Alice no País das Maravilhas - Lewis Carol)

12.2.12

Authorization


A obra Authorization, de Michael Snow (1929) põe em discussão a complexa relação do fotógrafo e do seu observador, autorizando a sua contemplação. Vê-se um mundo se fechando e transbordando por entre a moldura do espelho, o objeto que desmorona a omissa presença do admirador. Snow montou e materializou artesanalmente, o que enriquece ainda mais a experiência, um texto imagético sobre o encontro do observador com a obra e o seu autor. Em um espelho de dimensões proporcionais a uma foto polaroide, Michael traçou com uma fita adesiva, um novo quadro, novamente com as dimensões da união de quatro fotografias polaroides.


Michael se posicionou perante o espelho de forma que pudesse enquadrar a si, para depois sumir, e eternizar. A cada disparo de sua câmera, revelava-se um novo quadro. A revelação imediata, favorecida pela sua câmera polaróide, é o que permite a autenticidade da obra. A primeira foto continha todo o quadro, espelho, fitas, câmera, Snow. A segunda, além de todos os elementos que compõem a obra, havia algo além. A cada captura surgia a foto tirada em anterior, colocada uma ao lado da próxima, duas em cima, duas em baixo, em um novo quadro de dimensões polaroides. Por fim, Michael desapareceu, notamos apenas pela última foto colocada no canto superior esquerdo do espelho. Agora se põe ali o observador, se reconhecendo como tal, e ao mesmo tempo sendo reconhecido.

Essa genialidade provoca uma inquietação profunda, de admiração, de voyerismo, de gozo. Algo que se repetiu semelhantemente com o ensaio Fome de Ver, do fotógrafo japonês Kohei Yoshiyuki. Kohei fotografou, na década de 1970, durante a noite, em três parques de Tóquio. O que chama a atenção neste ensaio é o registro de casais em encontros sensuais, sendo observados por uma dezena de voyers. Inusitadamente, em exposição, as fotos propusera a seus espectadores a atividade de voyerismo em círculo, como Snow.

Philipe Dubois (1993), ainda mais essencialista, coloca a própria captura fotográfica, feita através de um espelho posicionado dentro da câmera, como o primeiro ato de voyerismo. O ato fotográfico é um fazer que congela, e ao mesmo tempo reflete, como um espelho, a sua ação. A fotografia é, senão, a sua própria história, o seu passado e o seu presente, revelando a todos que envolvem-se na sua narrativa.

27.11.11

Seminário Enquadres

A oitava edição do louvável edital cenAberta da Casa da Ribeira contemplou a realização do Seminário Enquadres. Sob a organização das fotógrafas Elisa Elsie e Mariana do Vale, o seminário trouxe a discussão da fotografia como expressão artística e documental para o público potiguar, e foi lindo!

As mesas de discussão contaram com importantes figuras, ícones nas segmentações de fotografia em debate, Marcelo Buainain, João Roberto Ripper, Isabel Amado e Numo Rama. As falas foram riquíssimas em detalhes, de incentivo e fomento à produção local.

Como exercício da disciplina Direção e Interpretação que estou cursando neste semestre, projetamos em equipe, inicialmente apenas como um piloto de um programa de TV sobre fotografia, mas com imenso desejo de prosperidade, o programa Enquadres.

Aqui está ele, com alguns defeitos especiais, um pouco sobre o seminário, com menção ao coletivo Solares, vanguarda na produção potiguar de fotografia artística e documental, e o ensaio Véu em Solo, Sertão Central.

4.11.11

Enearte 2011

Na semana passada, de 23 a 29 de outubro, aconteceu aqui em Natal o XV ENEARTE (Encontro Nacional de Estudantes de Arte). A programação do evento  aconteceu na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e além das atividades comuns ao encontro houve uma feira/exposição de trabalhos de artistas da cidade. No fim, alguns participantes estiveram presentes na Praça Vermelha, na Cidade Alta, para um ato público reivindicando a falta de políticas públicas para a área.

Porém, o ato público mais visível foi aquele em que algumas pessoas se juntaram para pintar o viaduto ao lado da UFRN. Transformar o cinza da cidade em espaço para a livre expressão. Reivindicar espaços.

Circulamos pelo DEART, onde estava acontecendo o evento, para captar momentos que despertam nossa atenção. Gestos, movimentos, ações. O cotidiano que tanto nos fascina por fazer parte de nós. E a quebra da sua suposta linearidade.


31.10.11

A engenharia do lixo


“Ali atrás vai ser uma faculdade, aqui na frente vai ser um salão de cabeleireiro”, mostra seu Josué Albano Cabral, 52 anos, apontando para frente da sua moradia. A casa em questão, localiza-se em uma barranco ao lado de uma loja de piscinas, na Av. Tomaz Landin, perto da ponte de Igapó, na Zona Norte de Natal. É feita com lixo, coisas que seu Josué encontrou e usou para construir seu abrigo. Guarda o único documento que possui (sua dispensa de reservista) amarrado em seu boné com um arame. Usa uma cruz presa a um cordão como cinto e veste uma surrada camisa branca de botão.

A fachada da casa é construída com papelão, madeiras, garrafas pet, e toda sorte de coisas que se pode encontrar facilmente no lixo. Há também algumas plantas e flores dentro de latas vazias. No pequenino espaço interno, há um sofá pequeno, quase completamente sem cobertura, bastante sujo. Nas paredes de madeira, papelão, e tijolos reciclados, algumas fotos religiosas, uma página de revista com uma atriz global, numa bela casa, estampada. A casa de Josué Albano não se assemelha em nada à da atriz, mas, estranhamente, o local passa certa impressão de organização.

Antes a casa de seu Josué era do outro lado da ponte, mas foi removida. Segundo ele, após se ausentar de casa, ao voltar ao local uma viatura da polícia militar o esperava com as ferramentas para derrubar seu castelo de lixo. “Eles levaram tudo, ferramentas, enxada, minhas roupas. Levaram tudo”, conta Josué. Ele explica que não sofreu violência para deixar a casa, “Porque eu não reagi. Quando eu cheguei me mandaram logo ficar calado e começaram a derrubar as coisas.” Tal qual o famoso samba de Adoniran Barbosa, a maloca de seu Josué foi derrubada, fazendo com que ele começasse sua nova construção.

Seu Josué intercala momentos de aparente lucidez com frases desconexas. Quando perguntado sobre sua família, engata numa história confusa e sugere que sua mãe teria sido do exército. Se exalta um pouco quando peço para que explique o assunto novamente. “Você já sabe, não vou dizer mais”, retruca. Diz que tem três filhos, sua única família, mas que não tem contato com nenhum deles.Pedimos uma foto dele ao lado da casa e para nossa surpresa o homem diz que não vai tirar a fotografia. “Porque a casa ainda não está pronta, quando estiver vocês voltam aqui e tiram a foto. É que eu ainda estou na engenharia”, diz. Insistimos em tirar uma foto apenas dele. Enervado o homem diz que não vai tirar a fotografia de jeito nenhum. “É para não misturar as essências”. Não insistimos mais.

Seu Josué continua procurando mais coisas que possa acrescentar à sua casa. Continua na engenharia de um castelo de lixo e de ilusões. Um homem sem ninguém, sem uma perspectiva real, que aparentemente só quer um lugar para morar. Seu Josué não tem medo de sua casa desabar. Ele diz que não será mais despejado, pois comprou o terreno. Não é possível que tenha comprado, já que o local não tem dono, é área do município. O engenheiro do lixo segue seu projeto, apegado a sua casa e sua história fantasiosa, engordando as estatísticas de desabrigados no Brasil.

1.10.11

Paraty em Foco 11'

No dia 1° de julho deste ano estava aqui beirando o ócio, navegando nesta mesma rede, e resolvi conferir as atualizações do coletivo Garapa, e assim pode-se dizer que tudo mudou. O último post do coletivo era sobre sua participação no Paraty em Foco - 7° Festival Internacional de Fotografia que acontece em Parati/RJ. Claro que fui lá fuçar todos os menus e submenus do site do Paraty em Foco e fiquei encantada com a possibilidade de estar presente no Festival, ver todas as fotos, conversar e sociabilizar o prazer compartilhado. O Paraty em Foco oferece a oportunidade, a interessados do Brasil e do mundo inteiro, de trabalhar com a equipe do Festival na produção e organização dos workshops, encontros, entrevistas, projeções, lançamentos, exposições, da extensa programação enfim, através do Programa de Estágio, e as inscrições eram até o dia 30 de junho, um dia antes da minha visita! Poxa!

Mandei o email mesmo assim, e tive o retorno no dia seguinte de que a minha inscrição havia sido realizada com sucesso, massa! Agora era esperar a data da entrevista via Skype... e de repente, não mais que de repente, me vem o cheiro forte de mata verde, uma paisagem gigante! A estrada do litoral do Rio é incrível! Mal conseguia fechar os olhos para tirar aquele cochilo da viagem de ônibus, era uma pecado perder uma folhinha sequer daquelas fotografias passando, passando. Parati é uma cidade aconchegante, azul, apesar do tempo nublado, me lembra um abraço apertado no frio-outono.

Sunsets Portraits de Penelope Umbrico, Paraty em Foco 11'

Por coincidência, ou não, fiquei com a monitoria do workshop do Gui Mohallem e do Garapa, e foi chegando e o trabalho já começando. No tour que fomos fazer com a Talita Virginia (a produtora mais doce que eu já conheci), para conhecer os ambientes do Festival, encontramos o Gui e já fui acompanhá-lo na preparação da sala que aconteceria seu workshop. Ele precisava de total ausência de luz, depois vim entender sua exigência. O Gui é um cara genial, fiquei impressionada com a sua sensibilidade! Três projetores Fresnel iluminaria a sala com três cores diferentes de gelatina. Na primeira conversa do workshop o fotógrafo ler Mário de Andrade, um texto suave como uma pluma sobre o eterno encontro com a infância. Depois os participantes escolheram uma luz, entre verde, vermelho e azul, para criar uma imagem que lhe recordasse a infância entre pincéis, giz de cera e crepons. A partir daí entramos num ambiente lúdico de experimentações, a luz como protagonista se coloria na parede enquanto o Gui falava sobre cores primatas, desconstruindo paradigmas. Sentados ao chão o grupo conversava intimamente sobre suas experiências, sobre a fotografia, sobre temas variados envoltos deste mundo. Foi uma delícia!


O workshop do Gui só durou um dia, uma pena! O Garapa dividiu o workshop em três dias, o que fez com que o grupo interagisse com mais proximidade. No primeiro encontro apenas falamos da trilha do dia seguinte, o Caminho do Ouro - uma experiência multimídia na Serra do Mar! A Adriana Camilo, uma das participantes do workshop, fez uma observação bastante relevante sobre o caminhar em Parati. Como seria a locomoção de um portador de deficiência física nas ruas históricas, ainda preservando a construção feita por escravos no séc. XIX, com pedras em desalinho?! Por partilhar deste questionamento o grupo resolveu que parte do Caminho do Ouro seria feito e narrado por alguém vendado, e foi fácil encontrar voluntários. O caminho, colorido de amoras, construído por escravos entre o séc. XVIII e XIX para a extração de ouro, foi todo apresentado pelo nosso guia Armando, que nos apresentou também o guia-morador Seu Américo, duas áureas de passarinho que nos acompanhou todo o trajeto. Ao final, comemos pastéis à beira da estrada para repor as energias de quase 4km de caminhada, e bem ao lado fomos visitar o Alambique Engenho D'Ouro, uma cachaçaria artesanal. 


O choque térmico da água com no máximo 0°c de temperatura não reprimiu a caída na cachoeira no final da tarde, para brindar o dia, para brindar a vida! No terceiro dia do workshop, o grupo silenciou para editar todas as imagens captadas pelos 18 fotógrafos participantes, não só de fotos, mas também vídeo, áudio e GPS. O resultado você pode conferir no endereço: http://caminhodoouro.tumblr.com/

Eis a foto oficial da equipe do Caminho do Ouro, todos nós ficamos um.


Esses foram dias de crescimento sobretudo, profissional e pessoal. Esse texto está ficando maior do eu esperava, mas quero deixar registrado o quão feliz eu fui de ter encontrado tanta gente bacana, profissionais serenos, pessoas. A fotografia guarda um tanto do que vivi, mas gostaria de cravar em mim todas as sensações de Parati, não me perdoarei se a memória falhar, quero que se prolongue pelo resto do ano e inspire novas experiências. Sem esquecer da equipe maravilhosa que tive o prazer de trabalhar, sem esquecer o frio que pedia abraços ternos, sem esquecer o sol do último dia que mostrou o quão singular é aquela cidade, sem esquecer todas as cores-flores-pessoas que coloriram o meu caminho.

Equipe do Programa de Estágio do Paraty em Foco 11'
- foram 70 inscrições -


"... ela amaria eternamente o não-fotografado porque era um devir."